quinta-feira, 18/09/2014
Aconteceu

Morre padre Pereira, ex-reitor da PUC Goiás

Faleceu na manhã de hoje, 25, o ex-reitor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás), padre José Pereira de Maria. O velório terá início às 10h30, na Catedral Metropolitana, onde o arcebispo de Goiânia, dom Washington Cruz celebrará missa de corpo presente, às 15 horas. O sepultamento está previsto para às 17 horas, no Jardim das Palmeiras.
A PUC Goiás destaca o legado deixado por padre Pereira e seus 86 anos dedicados ao Evangelho e à educação. A relação de padre Pereira com o ensino superior em Goiás é fundamenral e originária. Desde 1959,  quando foi fundada a Universidade do Brasil Central, depois Universidade Católica de Goiás e atual PUC Goiás, as histórias da instituição e do padre Pereira se entrelaçam. Em 1979, quando os padres jesuítas, gestores da universidade, deixam a administração da instituição,  dom Fernando Gomes de Oliveira, arcebispo de Goiânia, convida o monsenhor José Pereira, vigário episcopal da Arquidiocese, a assumir a Reitoria.
Relação com a universidade
Como reitor até o ano de 1985, ele enfrentou o grande desafio da redemocratização do ensino superior, em um momento de crise em todo o País. Ao mesmo tempo, a Universidade precisava assumir as  orientações da Igreja para a América Latina, a partir de Medellín, Puebla e das diretrizes traçadas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A renovada identidade da UCG estava expressa  no documento Grandes Linhas e Critérios Opreciaonais para a vida na universidade, fruto da reflexão incentivada pelo reitor padre Pereira.

Em entrevista realizada na comemoração dos 50 anos de seu sacerdócio, o padre explicava: “São os princípios básicos que estabelecem os princípios fundamentais da organização e, portanto, a razão de ser dela [Universidade Católica]. Dentro desta visão, há um horizonte que dá a identidade da organização”. As Grandes Linhas da Universidade foram a base inspiradora dos estatutos da Universidade Católica de Goiás e de sua mantenedora, a Sociedade Goiana de Cultura. Enfim, desembocaram no “Projeto UCG”.

Durante a reitoria de padre Pereira, além da expansão dos cursos de graduação da Universidade Católica, foram criadas a Vice-Reitoria para Assuntos Comunitários e Estudantis (VAE) e a Vice-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa (VPG), e iniciadas as atividades do  Centro Comunitário de Meninas e Meninos (Cecom).

Padre Pereira com dom Helder Câmara e dom FernandoSociedade Goiana de Cultura
Em 1993,  padre Pereira foi nomeado chanceler da Universidade e vice-presidente da Sociedade Goiana de Cultura. Nessa função, criou um conjunto de mantidas que caracterizavam seu apreço pela ciência e compromisso social: Instituto Dom Fernando (IDF), Instituto de Pesquisa e Estudos Históricos do Brasil Central (IPEHBC), Fundação Aroeira e Instituto do Trópico Subúmido (ITS). Explicava: “É preciso fazer muita força para que a gente atinja um conjunto maior, uma soma mais plena, mais amadurecida, para que se chegue a um desempenho de qualidade mais objetivo”. Ao deixar a SGC e a PUC Goiás, em 2002, padre Pereira confiou essa mensagem que define e qualifica sua vida.

Biografia
No dia 17 de fevereiro de 1926, nascia em Jaicós, no interior do Piauí, José Pereira de Maria, um dos 16 filhos de Inês Pereira Maria e Firmino Pereira de Maria. Aos 11 anos, para surpresa da própria família e dos amigos mais próximos, o garoto “custoso” entrou no Seminário Menor, no lugar do irmão mais velho que já não manifestava interesse pela vida de padre. Apesar da resistência inicial dos pais pela atitude intempestiva do menino, ele afirmou com veemência e convicção: “Quero me tornar um grande padre!”.
A partir dessa teimosia de criança iniciava uma grande trajetória pautada pelo compromisso com Deus, com a vida e com as boas causas. Aos poucos, o menino crescia e amadurecia seus conceitos e reflexões sobre a fé cristã e o mundo. Cursou Filosofia no Piauí, Teologia no Seminário Maior, em Olinda (PE), e no dia 23 de novembro de 1952 foi ordenado padre.
Dinâmico, mesmo assumindo tantas responsabilidades e compromissos por consagrar a vida ao anúncio do Evangelho, padre Pereira sempre esteve muito próximo à família. Trabalhou como professor do ensino médio e de universidades para colaborar no sustento dos numerosos irmãos, principalmente após a morte do pai Firmino.
Constantes eram a lembrança e palavras de admiração para como pai. Recordava-o sempre como um homem forte e decidido que, muito lúcido, poucas horas antes da morte anunciava suas últimas horas e faleceu serenamente conforme suas palavras. O padre Pereira recebeu a notícia da morte do pai, no dia que chegou a Goiânia e se apresentou a dom Fernando Gomes dos Santos, então arcebispo metropolitano.
Em depoimento para uma publicação especial por ocasião do cinquentenário de sua ordenação sacerdotal, em 2002, o padre Luiz Gonzaga Lôbo também observou o carinho de padre Pereira para com os entes queridos e seu papel de liderança no seio familiar. “Estou me referindo ao amor, carinho e cuidado que tem com a sua família humana. Dela ele nunca se afastou e sempre foi o ponto de apoio e encontro”.

Chegada a Goiânia
Em 1959, padre Pereira chega a Goiânia e apresenta-se a dom Fernando Gomes dos Santos, outro nordestino “arretado”, com quem firmou uma parceria de fé e muito companheirismo.
Nesta capital foi acolhido com alegria e, pela sua bagagem intelectual, vivência e dedicação pastoral, conquistou o respeito e a amizade de todos: gente do povo, religiosos, professores, estudantes, agentes da educação católica.
Confirmando seu dinamismo como padre e cidadão, seus gestos e ações indicavam seu compromisso com a Igreja e o povo. Dedicou-se na fundação e regência da Paróquia Nossa Senhora das Graças, no Setor dos Funcionários, em Goiânia, e também assumiu a secretaria-executiva da Regional Centro-Oeste da Arquidiocese, sendo o grande divulgador do Concílio Vaticano II (“um momento de reflexão global da Igreja sobre si mesma e suas relações com o mundo”, como afirmou certa vez o beato João Paulo II), junto aos padres e bispos da região.
Após a morte de dom Fernando, padre Pereira foi eleito administrador diocesano pelo Colégio dos Consultores, período em que ficou à frente da Igreja de Goiânia até a vinda do novo arcebispo, dom Antônio.

Liderança e mobilização política
Na década de 60, padre Pereira morava em um pequeno quarto na Vila Operária [atualmente Setor Centro-Oeste] e foi naquele bairro humilde que ele disseminava suas ideias a favor de uma nova igreja voltada para os pobres, assessorando as nascentes comunidades de base. Também incentivou movimentos sociais como a Juventude Universitária Católica, Juventude Estudantil Católica, Juventude Operária Católica; estimulou as Comunidades Eclesiais de Base, demonstrando seu talento como sacerdote, líder e educador que sabia dialogar com a juventude, além de ser uma presença solidária e um orientador espiritual nas causas estudantis.

Aprofundando conhecimentos: exílio na França
Durante o Regime Militar, padre Pereira foi ameaçado de prisão várias vezes por sua proximidade com os movimentos de contestação ao regime e por ajudar perseguidos políticos. Por precaução, afastou-se de Goiânia e, na França, de 1966 a 1970, pode aprofundar conhecimentos na Antropologia, a Ciência do Homem, que, com a Teologia, foi a sua paixão intelectual. E teve a sabedoria de aplicar os conceitos da academia em favor do bem comum e de uma sociedade mais igualitária.
Padre Pereira tinha faro nato para pesquisa e nunca deixou de procurar novos conhecimentos. Especializou-se em Didática de Português e em Psicologia do Adolescente. Na França, fez especialização em Teologia Ecumênica na Faculdade Protestante de Paris. Na Sorbonne, obteve os títulos de mestre e doutor em Antropologia e Ciências Sociais na Escola Prática de Altos Estudos, onde apresentou a tese Participação dos brancos na destruição da sociedade Tupinambá no Brasil, de 1519 a 1743. Boa parte desse conteúdo foi fruto de pesquisas de campo realizadas com os irmãos Orlando e Cláudio Vilas Boas, no Alto do Xingu, mostrando sua identificação com a antropologia e a cultura indígena. (Site – PUC Notícias)